Apagão de talentos: o papel estratégico do RH para sustentar o crescimento do negócio

O apagão de talentos vai além da falta de profissionais: revela o descompasso entre as competências disponíveis e as necessidades do negócio. Cabe ao RH antecipar demandas, mapear capacidades críticas, desenvolver talentos e transformar dados em decisões estratégicas. Sustentar o crescimento exige construir hoje as capacidades humanas que a empresa precisará amanhã.

Cilia Rodrigues

10/10/20263 min read

O apagão de talentos deixou de ser apenas uma preocupação do RH e passou a representar um risco para a estratégia das organizações. Quando uma empresa não encontra as pessoas certas para atender um cliente, ampliar sua operação ou conduzir uma transformação, não estamos falando somente de vagas abertas. Estamos falando da capacidade de executar a estratégia e sustentar o crescimento.

Esse foi o tema que apresentei no 2º Encontro de Líderes de RH: “Apagão de Talentos: o papel estratégico do RH para sustentar o crescimento do negócio”.

Os dados ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, da ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldades para encontrar profissionais com as competências necessárias. O índice permanece praticamente estável desde 2023, demonstrando que não se trata de uma situação passageira.

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 63% dos empregadores consideram a lacuna de competências a principal barreira para a transformação dos negócios. O estudo também prevê que 39% das competências essenciais exigidas pelo mercado de trabalho deverão mudar até 2030.

No Brasil, o Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo SENAI e pela CNI, estima que o país precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2027 , sendo 2,2 milhões em formação inicial e 11,8 milhões em atualização profissional.

Esses números mostram que o apagão de talentos não significa apenas falta de pessoas. Ele revela um descompasso entre a estratégia de crescimento, as competências disponíveis e a capacidade das empresas de atrair, desenvolver, mobilizar e reter profissionais.

Ao longo dos meus 26 anos de atuação em Recursos Humanos, acompanhei empresas de diferentes segmentos e estágios de maturidade. Participei de cinco implantações de RH do zero e vivenciei cenários de crescimento acelerado, reestruturação e transformação. Essa trajetória me ensinou que contratar mais pessoas, isoladamente, não resolve o problema.

Em muitas organizações, a dificuldade aparece como um desafio de recrutamento, mas sua origem pode estar na falta de clareza sobre as competências críticas, em descrições de cargos baseadas no passado, em processos seletivos lentos, em lideranças despreparadas para desenvolver pessoas ou na ausência de mobilidade e sucessão.

Por isso, o RH precisa atuar em quatro movimentos estratégicos.

O primeiro é antecipar: compreender para onde o negócio está caminhando e quais capacidades serão necessárias.

O segundo é mapear: identificar posições críticas, talentos internos, riscos de saída e lacunas de competências.

O terceiro é desenvolver: avaliar alternativas como formação interna, mentoria, mobilidade, reskilling, upskilling, automação e parcerias externas. Nem sempre a resposta está em buscar no mercado um profissional pronto para uma realidade que muda todos os dias.

O quarto é demonstrar impacto: conectar indicadores de pessoas, como tempo de contratação, turnover de talentos críticos, mobilidade interna, cobertura de sucessão e tempo até a produtividade aos resultados do negócio.

O RH estratégico não é aquele que apresenta muitos indicadores, mas aquele que transforma dados em melhores decisões.

Como ponto de partida, proponho quatro perguntas:

  1. Qual é a prioridade de crescimento da empresa para os próximos 12 meses?

  2. Qual talento ou competência pode impedir essa estratégia?

  3. Existe alguém internamente que possa ser desenvolvido?

  4. Qual ação precisa começar nos próximos 30 dias?

Não precisamos sair com dez iniciativas. Precisamos de uma decisão clara, um responsável, um prazo e um indicador.

As empresas que sustentarão seu crescimento serão aquelas capazes de antecipar necessidades, formar talentos, fortalecer suas lideranças e criar ambientes nos quais as pessoas desejem permanecer e contribuir.

Qual capacidade humana a sua empresa precisa começar a construir hoje para sustentar o crescimento de amanhã?

Cilia Rodrigues
Consultora Estratégica em Pessoas, Cultura e Liderança
Pessoas no centro da estratégia.

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